Água Escondida

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Posted on 08/31/2014


Photo taken on August 31, 2014


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Iza-Quelhas

Iza-Quelhas
IZA Terezinha Gonçalves QUELHAS (São Gonçalo, RJ, 24 ago. 1955). Professora de Literatura formada pela Universidade Federal Fluminense. Pós-graduada em Literaturas Africanas (Portugal). Mestre e doutoranda em Teoria Literária, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha na Editora da Universidade Federal Fluminense. Lecionou Teoria Literária no mestrado em Letras da Universidade Federal de Alagoas. Orienta oficina de Redação e Literatura. No prelo: A passagem dos sinais, poesia; e Crianças Afagadas, pequenas histórias vividas num subúrbio.

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Água Escondida
Água Escondida
FRAGMENTOS DE INSÔNIA

Iza Quelhas

À noite, não dormi, meu amor, pensando em ti.
Mutilei o teu corpo em lembranças, até que um
jabuti desenhou o teu rosto com uma palheta
de giz na madrugada.
Teu rosto girava em mim,
bússola de seta errante, alheia à gravidade.
(Enquanto isso, a Lua trazia as tuas mãos até meus seios).
À noite, não dormi. Confúcio dizia
algo e não havia discípulo.
Fui à China, antes que a fogueira
do tempo erguesse um muro entre nós.
Senti nos dedos uma friagem e
quase ópio de mim
vi-te inscrito entre cílios e crianças.
(Fui desenhar o trajeto de alguma bala perdida ao sul do Equador.)
Assim, fiz o teu rosto com fios de cera
e grãos de areia.
Talvez, na infinitude do tempo, alguém reconheça nesse rosto,
moldado também pelo vento,
o desespero de um momento desamparado de mim.
Acesos todos os lençóis que havia,
prendi-os aos ombros, longas tranças,
frágeis de altura e ventania.

A noite subia lenta. Na terra de Palmares, nada mais ardia,
além das velas na praia.
Escorreguei num barco sem sossego, apesar da noite exigir
apenas madressilvas e jasmins.
Os corpos debruçaram-se sobre esta folha,
navio de escravos em desterro.
Mas essa noite, meu amor, eu não dormi,
porque estou tão longe de ti.

Antologia Água Escondida (1994). Página: 120
4 years ago.