Ao certo, não sabia do que se tratava. Subitamente, apercebera-me que a criança que há em mim estava em risco e que a perda fazia parte desse meu mundo sitiado pela barreira de cristal. O normal, num ápice e sem avisar adquirira inusitadas dimensões (cf
aqui). Afinal, o azul claro, há muito o deixara de ser, tornando-se cada vez mais azul escuro.

Com a mudança no seio familiar, fruto do apoio e cuidados prestados à avó materna, portadora da Doença de Alzheimer, atitude que muito me honrou por parte dos meus pais, os laços familiares ficaram mais fortes. De início, talvez o roxo seja a cor adequada para pintar a tela das terríveis crises de demência que suportamos, as quais, felizmente, e com o verde da esperança, foram diminuindo com o tempo, graças à medicação e tranquilidade.


Mas se o sol de amarelo ou laranja costuma ser pintado, sem emitir ruído recebi, por telemóvel, a notícia do tumor na glândula salivar superior da minha mãe. Corri para o chuveiro, debaixo do qual mergulhei, soluçando, entre água e lágrimas. Sabia não poder mostrar qualquer esboço de dor ou receio frente à minha progenitora e/ ou avó. Agarrado ao verde da natureza consegui-o. No trabalho, as turma F (de aldeia) e a de PCA foram uma preciosa ajuda. Para eventuais demónios, existem os disfarces. Sem nunca ter recebido a visita da outra filha e do marido, estes acabaram por se evaporar da memória da avó. No seu outro mundo, o da demência, percebemos que na maioria das vezes, aquele que aterrorizava e tentava fazer mal era, afinal, o marido. Final estranho teve este homem, de vida errante. Talvez um demónio na terra… Muito provavelmente roubado pela filha “do coração”, sem se relacionar com a outra que a cuidar da mãe ficou e tendo tentado esfaquear o genro, acabou por falecer em posição estranha, numa cama, sozinho em casa… E eu que pensava que antes de partir havia lugar ao pedido de perdão pelos erros ou à reconciliação. Não fui à despedida ou à sua última morada. Sobretudo, não posso admitir o mal que fez à minha avó, privando-a de bens essenciais e sujeitando-a a jogos de dor psicológica. Contudo, em mim ficou algum sentimento de culpa por não o ter feito. Perdoei-o e até o continuo a chamar avó. O mesmo não sucede com o outro ser saído do ventre da minha avó, onze anos após a minha mãe.


O período de convalescença do pós-operatório/ remoção do tumor da mãe trouxe algo rico: a descoberta dos amigos. Pessoas que considerávamos distantes apareceram, assim como, algumas que pensávamos próximas, afastaram-se.



Quando minha mãe soube que seu tumor estava, para já, “bem comportado”, eis que no dia seguinte, somos informados que, desta vez, o doente era o meu pai, com cancro na coluna… Suspeitamos de mieloma múltiplo mas os estudos continuam, a passo bem lento, dados os recursos dos nossos médicos. Estranhamente, caí. Passei dias na cama, indo apenas ao WC, com intensas dores de cabeça. Os alunos sei não ter prejudicado pois quem bom estágio teve, com exigência e rigor, associado ao querer ser professor desde sempre… Repentinamente, e porque de um momento para o outro, meu pai pode ter que se locomover em cadeira de rodas, sou obrigado a perder a fobia da condução (conseguirei quando se trata de uma fobia real e diagnosticada?), a resolver problemas aos quais era completamente alheio,… Não compreendo queda tão brusca dado tratar-se de um segundo caso na família, ter maior afinidade com a mãe,… Não deveria ter desenvolvido resistências? Até a camuflagem contra inimigos esqueci!


Estes últimos três anos tem sido de renascimento da fé, desespero, ansiedade e alguma angústia.


Ao contrário de anos letivos anteriores, desde 2009 não me sinto realizado. A distância a casa é muita e o sistema de transportes públicos nulo. Eficácia, por exemplo, é um termo desconhecido no Agrupamento de Escolas onde trabalho, assim como “sensibilidade”. Isto, claro está, para aqueles(as) que se recusam em usar caminhos que vão contra a sua integridade e o seu Eu. Pensara eu, por exemplo, vir a ouvir determinadas palavras, que revelaram total desconhecimento dos bons resultados das minhas turmas em exame? Ou um discurso no qual tomado fui como néscio? Cenário turbulento, com contornos de puras verborreias.


Se respeitado não és…