A LASE toma a liberdade de transcrever a maravilhosa palestra proferida pelo FRANKLIN DA COSTA BRAGA (54/55) na homengem prestada em Vila Viçosa no passado dia 22, ao Cónego JIOSÉ PIRES PATACAS(40/41)

"Homenagem ao Pe Patacas

Não vou falar muito sobre o Pe Patacas. Nem tecer elogios desmesurados, colocando o Pe Patacas no patamar dos santos a canonizar, e muito menos apontar-lhe defeitos, que, como todos nós, certamente teria, mas que não suplantam as virtudes do homem simples. Vou apenas lembrar a minha curta vivência com ele, quer como prefeito do meu 2º ano, quer como meu professor de Latim e ainda como pessoa simples que era, fazendo jus às suas origens. Praticamente, só convivi com ele um ano já que, terminado o 2º ano, fui para os Agostinhos e a convivência com as Chagas era pouca.
Como prefeito:
Foi uma mudança radical no modo de convivência com o novo prefeito. Habituados no 1º ano a uma vigilância apertada e agressiva, que chegou a ponto de investigar um ou outro acto de indisciplina ou simples falatório na camarata depois do fecho das luzes através da ameaça ou da denúncia alimentada por parte de colegas, ouvidos um a um, a que não faltou a chantagem e a que se seguiram os consequentes castigos, eis que no 2º ano nos surge um homem bom, a que o povo chama de santo homem, em que a disciplina acontece naturalmente sem actos inquisitórios, actos esses que seriam retomados pelo prefeito do 3º ano. A camaradagem com os alunos, jogando com eles no recreio à bandeira, ao basebol, à corda e outros jogos, eram prova da sã convivência entre prefeito e alunos e a natural compreensão destes por parte de quem poucos mais anos tinha que eles. Não me recordo que tenha batido ou de outra forma castigado algum aluno no decurso normal dos dias. Isso não implicava permissibilidade. Basta lembrar um episódio passado aí pelo 10 de Junho, num passeio grande à lagoa de Borba, em que atravessámos as 2 tapadas da Casa de Bragança. Estando bastante calor, pelo meio da tarde, alguns alunos tiveram desejo de tomar banho na lagoa. Uns tantos foram pedir ao prefeito Pe Patacas a devida autorização, a qual foi negada, compreensivelmente, já que o risco de afogamento era razoável, com as responsabilidades inerentes. Pois bem, esses colegas foram para uma ponta da lagoa gritando que tinha sido autorizado tomar banho. E vários se atiraram à água, até vir o prefeito, ou alguém a mando dele, avisá-los para saírem da água. Chegados ao seminário e reunidos na sala de estudo, o pe Patacas, nada satisfeito com a mentira, chamou à frente o Jaime e creio que também o Velez. Perguntou-lhes qual a resposta que tinha sido dada ao seu pedido para tomar banho e, apurada a verdade, receberam o castigo merecido, umas lambadas. Já não me recordo se foram logo expulsos ou apenas não regressaram das férias que se aproximavam.
Ainda como prefeito, começou a designar na capela, pela manhã, um aluno cada dia para fazer a meditação em voz alta. Não sei se algum prefeito anterior já tinha usado este método. Nem me recordo de ter sido seguido em anos posteriores. Foi uma experiência que nos preparava e nos incutia o sentido da responsabilidade.
Por ser um homem bondoso, lembrei-me de o escolher para meu padrinho do Crisma, apesar de nos ter sido dito que não era permitido aos superiores serem nossos padrinhos. Com a minha insistência, acabou por aceder. Quando chegou o Verão, com o suor das corridas no recreio a que se seguia o estudo na sala um pouco fresca e em que eu tirava a casaquinha, apanhei uma pleurisia e tive de ser internado no Hospital da Sta Casa da Misericórdia de Vila Viçosa por uns 20 dias. Recordo o agrado que sentia quando meu padrinho me visitava. Sinto com grande mágoa não ter retribuído as visitas quando ele esteve doente e faleceu, já eu tinha saído do seminário, pois não tive conhecimento da situação. É como se fosse uma maneira de me penitenciar que aceitei o convite de vir aqui hoje e dizer algumas palavras.
Da sua bondade recordo ainda a boa merenda que, de improviso, ofereceu na sua terra natal-S. Miguel d’Acha, constituída por bom pão de trigo, muito branquinho, e azeitonas pretas, grandes e saborosas., aos alunos de diversos anos, oriundos da região do Sabugal que iam numa camioneta alugada à empresa de camionagem Viúva Monteiro & Irmão passar as férias da Páscoa ou do Verão, em que ele também foi.
De Roma, para onde foi formar-se em Direito Canónico, recebi pelo menos um bilhete-postal com a Praça de S. Pedro, que ainda guardo. Já não me recordo exactamente da ocasião em que me aconselhou sobre a vida e as renúncias que deveria fazer, dando-me o seu exemplo de renúncia às intenções de uma mulher que o assediava.
Como professor:
São poucas as recordações, o que é sinal de que tudo correu normalmente, isto é, bem. Lembro apenas um episódio. Num dos passeios pequenos pela estrada de Bencatel, aí pelo Carnaval, sempre em amena cavaqueira, por termos um exercício de Latim para daí a breves dias e estarmos preocupados com as más notas, muitos de nós tivemos a ideia de lhe lançar o repto de nos deixar usar gramática, dicionário e apontamentos no exercício (já não sei se até podíamos trocar impressões uns com os outros) e veria como as notas seriam altas. Em jeito de aposta, aceitou a proposta. Chegado o dia do exercício, todos preparados para as grandes notas, eis que escreve no quadro umas 3 ou 4 perguntas em Latim. Foi a desilusão completa. Por mais que folheássemos gramáticas e dicionários e coçássemos a cabeça, as respostas não saíam, já que não percebíamos as perguntas. As notas foram um descalabro. Tive um dezoito e não me recordo se houve mais uma ou duas positivas. Nunca mais quisemos exercícios com consulta.
Como padre:
Não acompanhei o pastor nas suas paróquias de S. Brás e S. Lourenço. Mas, a sua nomeação para os cargos de Secretário da Câmara Eclesiástica e Vigararia Geral de Elvas é a prova do seu bom desempenho.
Como pessoa de elevado nível cultural e de mérito:
Do seu mérito são provas os factos relatados na pagela da LASE- ser o urso do seu curso e ter conhecimentos literários avançados; o curso de Direito Canónico que tirou em Roma na Pontifícia Universidade Gregoriana juntamente com os de Jurisprudência e Pastoral, e o de Sociologia Religiosa na Universidade Católica de Lovaina; as nomeações seguintes para Secretário da Câmara Eclesiástica de Évora, Vice-Chanceler da Cúria Diocesana, professor no Seminário Maior de Évora, Director Diocesano da Obra da Propagação da Fé, da União Missionária do Clero e do Movimento de Espiritualidade Familiar, a nomeação para Cónego Capitular da Sé de Évora, com apenas 33 anos, são provas do seu elevado nível cultural e do prestígio que gozava na sua Arquidiocese. Os outros cargos para que foi posteriormente nomeado-1º Director do Secretariado Diocesano da Pastoral, 1º Presidente da Direcção da Fraternidade do Clero, 1º pároco da nova paróquia de Nª Srª da Conceição, Presidente do Tribunal Eclesiástico Diocesano e Prof.de Religião e Moral no Liceu Nacional de Évora-são outras tantas provas do seu prestígio cultural e pastoral.
Pena é que, ainda na flor da vida, com 44 anos, tenha partido tão cedo deste mundo, a quem tinha muito para dar, sobretudo à sua Arquidiocese de Évora. Resta-nos a consolação de que, como homem bom que era, Deus o terá com os outros justos a seu lado."

Franklim Braga