A LASE toma a liberdade de transcrever a bela dissertação proferida pelo lasista LIBÓRIO CASIMIRO GONÇALVES (60/61) na homenagem efectuada no passado dia 22 de Março de 2014, ao Cónego JOSÉ PIRES PATACAS(40/41)

"Excia Reverendíssima, D. José Alves
Exmo Presidente da Assembleia Geral da LASE
Exmo Presidente da Direcção da LASE
Caros Amigos

Um agradecimento primeiro, ao D. José por ter aceitado, compreendido e apoiado esta singela homenagem, ao P. Patacas, meu tio.
Aliás deixe-me dizer-lhe, que calou fundo, quando, como Bispo de Portalegre e Castelo Branco, se dignou visitar em S. Miguel a minha família, mormente a minha mãe, para saber se estava bem, mostrando assim, que a memória do P. Patacas continuava viva…
Agradeço, também, ao P. Fernando, incansável obreiro mor e continuador desta obra de saudável saudade que é a LASE, a ideia desta proposta de homenagem e a sua concretização.
Um agradecimento, ainda, ao Braga, pela total disponibilidade para a implementação da logística e vontade para que esta homenagem aqui, hoje, acontecesse.
Apesar de um difícil ano, no que respeita à sua saúde….

E, por último, ao Dr. Franklim pela disponibilidade do seu testemunho, dizendo–lhe que bem me lembro de seu pai e da sua carroça, parada à frente da nossa casa em S. Miguel, para ali pernoitar, quando de Quadrazais vinha, negociar os seus produtos.
O meu bem hajam.
E a todos vós, amigos do P. Patacas,….igualmente o nosso Bem Hajam pela vossa presença.

Coube-me a mim falar da dimensão humana, simples e solidária do P. Patacas, meu tio, por ter sido essa a dimensão que, efectivamente, ao longo da sua curta vida, mais me envolveu e moldou e a muitos de vós, com certeza.
Assim, nada melhor que regressar às origens e à simplicidade das coisas dos anos 50, para começar.

Era uma tarde de Setembro de 1960. As tradicionais festas do S. Paio da Torreira tinham acabado e eu sonhava sair pela primeira vez do seio da família.

Era um fim de tarde ainda quente. O último banho acontecera de manhã naquela paradisíaca praia da Torreira.
O cais estava cheio para a despedida: Avós , mãe, tios, irmãos…e, na barcaça da lancha, o Ti Zé e eu, de pé.
Soaram as sete badaladas na altaneira torre da Igreja que começava a esconder o sol e a projectar a sombra no cais.
Com as malas alinhadas na barcaça, o Ti Zé sorria e eu, atónito, tudo olhava e nada via.
O ti Aresta, mestre marinheiro da lancha, e sacristão fervoroso e bonacheirão, acabava de soltar a ultima amarra…….a lancha ronceira começava a afastar- se do cais…
As lágrimas assomavam–me aos olhos ao ver as mãos que, no cais, acenavam ….
Foi então que sinto a mão do Ti Zé apertar a minha e dizer me:
Vida Nova…..Não tenhas medo.
Já longe, a família ia dispersando, o avô, a mãe, a mana, o Quim, o Ti Tó e a ti Mariazinha…sim, todos, porque o ti Zé era o elo maior que a todos unia e comandava…e a Torreira era o local de refúgio e de encontro anual da família, colegas, amigos e companheiros.
Já na Béstida, com a sua furgoneta caprichosa, esperava-nos o Amílcar Vidal, para nos levar para a casa do seu irmão Alberto, em Estarreja, casa “americana” acabada de construir… que espanto… mas tudo simplicidade para o Ti Zé, pois era apenas preciso lá dormir, para apanharmos o comboio, na manhã seguinte.
Já agora, de outra, vez em Estarreja, num serão, em visita ao P. Zé Dias e família, seu companheiro de curso e grande amigo, como veremos, foi o bom e o bonito quando após animadas conversas sobre a grande vida na América, que os familiares do P. Zé Dias há muito que por lá viviam…o insólito aconteceu….
A certa altura, mandam calar toda a gente e eis senão quando…do meio do silencio feito , salta a conversa toda que até há pouco, animadamente, tínhamos concluído…
Mas ...que se passa?
O velho Zé Patacas, meu avô, de olhos e boca aberta, e tinha estado na guerra de 14 a 18, onde vira muita coisa, como dizia, olhava para todo o lado e…não era possível…mas era…a voz dele, e tudo o que ele tinha dito há pouco...oh….e vinha tudo de uma maquina novinha em folha, com uma fita que rodava.
Era de lá saíam todas as vozes e conversas…. Era o gravador que tinha vindo da América…que espanto….
E foi sempre assim, ao longo da vida, com tantas coisas simples…lendo os sinais dos tempos para proporcionar a todos o melhor…
Já em Vila Viçosa…que assombro…o Seminário a um canto da Praça, com o Palácio ao lado…que enormidade…que susto…a entrada sombria… lá estava a roda dos enjeitados…os claustros…as caras desconhecidas dos futuros colegas.
Mas, com o Ti Zé ao lado, o medo era conforto…
A apresentação aos “prefeitos”, ao “vice reitor” e a explicação de quem eram…a ida à camarata…sempre ao meu lado…a ida à papelaria...a primeira escova e a primeira pasta de dentes, o sabonete, os livros…mil e uma coisas novas…a capela no alto, sombria e fechada por grades, como ainda hoje lá está…que tivesse calma, não me assustasse…tudo ia correr bem…
Vá la que, depois, fomos para a quinta…para o pátio...as árvores, as laranjeiras…o pupilar dos pavões...já estava mais tranquilo…os sons e o cheiro da terra… fiquei mais descansado.

E o Ti zé lá se foi para Évora, sem se esquecer de dizer que se fosse preciso algo, era falar com o “prefeito”…sempre presente.
E assim continuaria ao longo da sua curta vida…a família, os amigos colegas, companheiros, paroquianos, pobres ou ricos, todos sabiam que com ele podiam sempre contar….sem reserva…em qualquer altura.
Lembro aqui, ainda, o que o P. Esteves, recentemente falecido, me disse e ao P. Salvador dos Santos: - Que aquando da sua Missa Nova, ele, P. Esteves, tinha composto uma missa especial, mas que estava aflito porque não tinha quem a ensaiasse e a pusesse de pé.
Pediu ao Patacas e ele, em três dias, tudo ensaiou e preparou e foi um êxito…
Também, no campo das letras e da Musica é de referir a peça “ Os Matos do Maduré” sobre S. João de Brito que ele escreveu e musicou, juntamente com o P. Ramiro Salgueiro, seu colega de curso, também… e que foi êxito na Festa da Casa.
No Conventinho, foi meu professor de inglês, quem diria…mas ele sabia bem falar e ensinar inglês, e todos admiravam as suas aulas. Depois, já no final da Filosofia, no Seminário Maior…em tempos de crises, sempre a protecção e o diálogo…mas também raspanetes…
O episódio do chumbo a grego, com o Melo Lima , o Macedo e o Nuno Pinheiro, salvo erro, com o semblante carregado, disse-me: - o Dr. Reis não merece isto…não pode ser afrontado desta maneira…temos que ver isto nas férias
E lá foram umas férias mais a estudar, desta vez grego, que das outras era latim...que o Dr. Henrique Marques também não facilitava…e eu, nessa idade, era algo avesso à concentração e a algumas disciplinas….mas ele sempre compreendia, era solicito, companheiro…paciente.

Voltando à Torreira, base de todas as férias, de todos cuidava, mas não se esquecia de si próprio..
Na praia, passava o tempo, enquanto apanhava sol, a ler e a escrever, a estudar….mas, mal se levantava, era ver os meus irmãos e eu a correr areal fora , com medo do banho… e ele a correr atrás de nós...é que, nos primeiros anos, pegava em cada um e zás…uma dúzia de mergulhos a cada um, sob o olhar atento do meu avô e a súplica da minha mãe:- O Zé, lá para a água funda, não….
Mas foi ele quem nos ensinou a nadar…com toda a paciência e confiança.
Depois de nos dar banho, lá ia então tomar o seu, calma e serenamente….mergulho após mergulho… e nadar quando possível… Tranquilo, sereno, feliz..
E assim foram alguns anos na Torreira…recebendo amigos e colegas.
A todos convidava, acolhia e atendia…

Quem não se lembra dos acampamentos que promovia com os alunos do seminário, nas margens da ria?
De realçar que foi o P. Zé Dias, colega de curso, quem o convidou para a Missa Nova em Estarreja.
E foi esse convite que veio depois a influenciar toda a vida e a família, pois foi, então, que ele descobriu a Torreira e por ela se apaixonou…pela sua beleza selvagem e paradisíaca, na altura…sem estradas, sem água, sem luz…um areal infinito a perder de vista, entre o mar e a ria..com uma colónia de pescadores fantástica, agrupados em “companhas”…que pescavam peixe em abundância...mas a quem o inverno só trazia miséria.
Porém, no verão, o Ti Zé sabia como compensar, ao ajudar todos os que rodeavam a “”Casa do Norte”...o que levava uma das sobrinhas da dona da casa, a Arlinda, a dizer: …O Dr. Zé é tão boa pessoa, que pena ser padre…pois….Mas ele sempre, mesmo no lazer e no descanso, não se desviava do sentido do dever: A reza diária do breviário de manhã e à noite, a missa, o terço…a família, os amigos, os colegas…
Por todos era querido e elogiado …pelas simples, objectivas e profundas homilias…até o sr. das notas passadinhas a ferro, como lhe chamávamos, o Dr. Barbosa, pois punha ao ofertório sempre uma nota de 20 escudos, acabada de chegar do banco.
Todos acorriam ás suas missas e à celebração do terço…

E, todos, com agrado, sob a batuta admiradora da Tia Mariazinha, mulher do irmão, o Tio Tó , tudo comentavam, com agrado e admiração, no “Guedes”, café da moda e do social, na Torreira.
Mas ele isso tudo ignorava.
Sobretudo depois de vir de Roma, a ninguém passava despercebida a sua postura de fato talar e roupa simples. A batina, de nylon, que ele trazia numa pequena pasta, só para as cerimonias.
Visionário. Sabendo ler os sinais dos tempos. Sempre e em todo o lugar…na hora certa.
Em Évora , com os casais de Sta Maria, que fundou e que o visitavam amiúde, até na Torreira.
E a preocupação com o futuro dos colegas, criando a Fraternidade Sacerdotal, para a todos melhor apoiar.
Em S. Miguel, sobretudo pelo Natal e na Pascoa, e até em Lisboa, na Igreja do Rato…

Em Évora, quando decidi desistir do seminário, imediatamente me indicou o caminho do Colégio Nuno Alvares e o saudoso P. Barroco…
E, depois, quando chamado para a tropa…me disse que fizesse o que entendesse. Que compreenderia, só que ele não era de fugir às coisas…e eu lá fui para o quartel para Viseu.

Em S. Miguel, era sempre uma festa em casa, com as pessoas a trazerem- lhe coisas e a quererem com ele falar para pedir conselhos e outras coisas…Mas, na Páscoa, era especial. Uma festa…O seu confessionário estava sempre cheio…pelos conselhos que dava, diziam os homens.
Por isso, depois, ao cantar das alvíssaras, após a Missa da meia noite…era vê-los com os acordeões à disputa com os adufes das mulheres, a cantarem- lhe à porta de casa o “Aleluia Aleluia já é festa”…. E ele, alegre, a lançar as amêndoas, a dar os bolos e o garrafão de vinho, como mandava a tradição…
Simples com os simples….
Mas foi, também, em S. Miguel na sua última despedida, pelo Natal, que se iniciou o seu caminho para o calvário e com a cruz às costas..
Pegou no velho VW, só para o meu avô ver que estava bem…mas à saída da aldeia foi o Quim quem teve que pegar no carro…já não tinha forças para mais… o caminho do calvário tinha começado, rumo à cruz…precisava de um Cireneu, e ele sabia-o.
Na América, em casa do P. Zé Dias, onde tinha estado uns tempos, nada lhe conseguiram fazer…”Agora entendo o que é ter fé e para que serve a fé…e entendo porque muitos pensam no suicídio”…disse-me um dia no quarto de Oncologia onde já estava em fase terminal…” tenho fé e sei que lá em cima estarei melhor… é a altura de partir…Tu, nunca percas a fé”.

A semente ia ser lançada à terra…….
E aqui estou a homenagear a quem penso merece esta pequena homenagem…passados quarenta anos…
Os outros foram sempre sua preocupação…e os outros sabiam- no…foi isso que se presenciou naquela tarde do dia 24 de Fevereiro de 1974…a Sé e a Praça do Giraldo cheias, a 5 de Outubro cheia até ao cemitério, onde repousa em campa rasa, simples, de granito preto, à entrada, à esquerda….com uma flor na campa, mesmo que de plástico… dizendo apenas: P. José Pires Patacas… 1929 – 1974.
LG"