O CAVALEIRO DE FREIXO (tragédia-bufa meio vicentina, o que quer que isto seja) I – NO O PRINCÍPIO ERA A BOLA Ai meu pai, como é bom entrar de férias! Sim, meu filho, estuda e deixa-te de lérias! Mas, meu pai, eu quero é jogar à bola! Ó meu filho, tu não estás é bom da tola! Se queres ser um engenheiro e ganhar muito dinheiro, tens que estudar a valer sem jamais esmorecer. Se quiseres fazer-te alguém, vai falar com a tua mãe, ela que te conte a história, a melhor de que há memória, de como ela era pobre, ainda que filha de um nobre de Freixo de Espada à Cinta, fidalgo de grande pinta! II – A DÚVIDA QUE SE INSTALA Ó meu pai eu já conheço essa treta, sempre me cheirou a peta! Ó meu filho, não é peta não senhor! É uma bela história de amor e de força de vontade! Ela queria, na verdade, era ser uma bailarina, daquelas de perna fina, peito chato e apertado e um tutu bem arejado. Mas, hélas, o triste fado não lhe quis dar essa sorte, um destino pior que a morte lhe estava escrito na mão. Ó meu pai, Eu não quero ouvir mais, não! Parece que já adivinho que não há rosa sem espinho! Se eu não sou filho da mãe, devo ser filho d’alguém! Quem é minha mãe, meu pai? III – O MISTÉRIO QUE SE ADENSA Ó meu filho, a memória já me trai e já nem tenho a certeza! Ó meu pai, deixa-te lá de esperteza e abre-me o teu coração ou eu digo um palavrão! Está bem, meu filho, eu confesso! Vais virar-te do avesso mas mereces conhecer como é complexo o meu ser, e a verdade pura e dura, ainda que algo obscura. IV – FINALMENTE A CONFISSÃO Meu filho, a tua mãe, meu filho, …… sou eu, teu pai! Ó meu pai, ai ai ai, ai ai ai! agora é que me perdi! disseste agora p’raí que a minha mãe … não é mãe? Que burro que és, meu filho, nota bem, o teu pai é mãe também! ai ai ai, ai ai ai, ai! E então, fico sem pai? agora estou-me a passar, já nem consigo pensar! Ó filho da minha alma, é melhor que tenhas calma antes que te dê uma coisa! Nem coisa nem loisa, meu pai ou lá o que és! Não arredo daqui os pés sem perceber essa história, e se te falta a memória, o azar é só teu, meu pai! V – O EPÍLOGO QUASI FATAL Pois bem, meu filho, aqui vai. O teu verdadeiro pai era uma cavaleiro andante, perdão, caixeiro viajante, que um dia passou n’aldeia. Cinco anos de cadeia e três de reformatório fizeram dele um finório de colete e jaquetão. No dia da procissão da Senhora da Saúde, passeava eu a virtude da recém adolescência quando alguém, com deferência, me convida p’ra dançar e sem p’la resposta esperar, pega-me a mão e me enlaça. Senti-me um pouco sem graça, mas enquanto o tempo passava, quanto mais ele me apertava mais eu sentia vontades …. VI – O DESENLACE DO EPÍLOGO Pai, chega de frivolidades! Perdão, me filho, é o calor! Mas aí nasceu o amor que me arrastou ao pecado! Menos de um ano passado, já ele tinha dado à sola lá p’rós musseques de Angola, e a minha vida mudou e tudo se transformou. Nasceste tu, filho amado, pele branca, pelo arruivado, olho azul de duas cores, lindo como as flores! Parti com força p’rá luta, esqueci o filho da puta, fui-me ao Palácio do Freixo e disse ao Duque: “Aqui o deixo! Trate dele que é seu também! Lembra-se do armazém onde me atacou por trás? Olhe que isso não se faz! A criança que aqui vê é filho de vossa mercê! VII – O EPÍLOGO MESMO Ó pai, deitaste-me fora? Espera, filho, não chora! Apanhei um avião qu’ ia p´ró Kazaquistão, onde ao preço d’úm pirolito me tornei hermafrodito. Comprei quatro pares de ténis, fiz vários testes ao pénis e voltei para Lisboa. Comprei casa na Brandoa, fiz o curso d’engenheiro e ganhei muito dinheiro. Comprei fatos e gravatas e mocassins de berloque, tive uma banda de rock e um Jaguar à maneira. Mas a saudade, traiçoeira, não me deixava dormir! Não conseguia curtir a vida, meu filho, sem ti. Foi então que decidi ir a Freixo de Espada à Cinta. Cheguei às dezoito e trinta e fui tratar do meu caso. “Senhor Duque, desculpe o atraso, será que lhe lembro alguém? Lembra-se do armazém onde abusou da criada e da criança, coitada, que lhe deixou p´ra criar? Não me quero lamentar, refreai a vossa fúria, não estou aqui p´ra lamúria nem pedir perdão p´ra ninguém, já que não pude ser mãe, só quero poder ser pai! VIII – A DESPEDIDA Ó meu pai, ó meu pai, ó meu … Já chega, ó filho meu, tu és meu e eu sou teu, não tens que me agradecer, basta-me que o queiras ser até o mundo acabar! Ó meu pai, vai-te matar!