AVENIDA DE LIBERDADE


como que surgindo do nada,
de repente era uma coisa nenhuma
que ocupava o espaço vazio
da minha não-existência

mas tudo se compunha ao por-do-sol
quando as sombras disputavam
o lugar da frente à luz pungente
da tarde que se espojava, sensual

sem que um pensamento
digno desse nome
se atrevesse a cruzar
o trânsito de uma avenida de liberdade
o semáforo mantinha, corajoso,
a rotina que o destino lhe escreveu,
olimpicamente alheio ao casalinho
de pombos que arrulhava amorosamente,
lascando serenamente
a calçada portuguesa

como que surgindo do nada,
de repente era uma nuvem
prenha de pedras pesadas de granizo
que se propunham ocupar
o vazio magnífico da dúvida permanente
sobre a minha futura existência