FALÓPIO III

O Falópio morreu.

Não, não é isso, o Falópio não morreu
assim daquela morte tradicional de lágrimas
e cemitério.

O Falópio morreu porque quis morrer
para a vida que tinha e que não tinha pedido.

Convenhamos, a bem da clareza expositiva,
que o Falópio, além de ser mais feio que o medo
(alegoria adaptável à latitude), não brilhava
pela inteligência.

Mas não era tolo, dizia-se que tinha até uma habilidade
quase paranormal de entender as coisas mais complexas da vida,
aquelas que não vêm nos livros nem se suportam em
estatísticas espúrias, as mais das vezes.

Falem-lhe em contas de somar ou subtrair
e os olhos embaçavam-se-lhe.

Mas desafiem-no a dissertar
sobre as dores doloridas da verdade
ou as cores fluídas do futuro e aí temos Falópio
em toda a sua inocência uterinamente grandiosa,
como se os anjos e serafins lhe soprassem
invisivelmente ao ouvido os segredos
deste mundo e do outro.