O DESCONHECIDO

Puxei pela cabeça,
espremi os neurónios até me zunirem os ouvidos,
mas em vão.
De forma nenhuma me ocorria o nome
daquele homem velho que tomava café no velho Vává.

Sei que o conheço,
sei precisamente, ou penso que sei, de onde o conheço
e sei até que tinha uma irmã mais nova, gorducha, de olho azul e meio gaga,
se não era gaga era trapalhona. Mas adiante.
O nome dele é que não saía. Por mais que forçasse o miolo,
não saía.

O homem velho seria mais ou menos da minha idade,
será que fomos colegas na escola primária?
Ou seria mais tarde, talvez da Veiga Beirão!
Não, era da primária de certeza.

Tentei, então, focar-me na pessoa do homem velho.
Não se pode dizer que fosse velho, enfim, novo não era,
digamos que estaria a sair da primavera da vida
(estarei em auto-defesa subconsciente?),
mas velho não.

Rugas tinha em abundância, que a barba grisalha tentava ocultar.
O queixo era fraco, o que lhe arredondava a cabeça, mesmo que
a postura geral fosse paradoxalmente voluntariosa.
Já o nariz não condizia, esperá-lo-ia longo e adunco, mas nada disso,
era achatado, de narina ampla e arejada (heranças de mestiçagem?)
Cabelo muito curto, denso e notavelmente escuro,
quase negro e mais liso que ondulado.

Cinquenta? Talvez um pouco mais, mas pouco, pouco mais.
Caíu-me entretanto o olhar para o pescoço. Ah, o pescoço traíu-o!
A pele, amolecendo, redesenhava-se pelo pescoço abaixo
em venenosas pregas sobrepostas!
Mais do que trair a idade, as rugas traçavam-lhe o destino.
Não, de forma nenhuma este homem
poderia ter sido meu contemporâneo!
Meu coleguinha? Jamais!
Oh meu Deus! Não!
Era o João, o Cabeça-de-Batata!