CHÁ PARA TRÊS

Deparei com meia dúzia de folhas de chá
no fundo do copo. Normal,
dirão alguns, mas não será tão normal
para quem acabou de beber um sumo de laranja.
Bom augúrio, dirão na China.
Ainda o pensamento ia em meio
já um agudíssima cólica intestinal
me trespassava o baixo ventre,
tão baixo que quase rasava a terra,
tanto que me dobrei sobre ele.

E logo o leão rugiu em ré menor, sentou-se
e abanou a cauda. O masai pensou
“bom augúrio, sim senhor” e pousou a longa lança.
Tirou a sanduíche da maleta hermés,
retirou o papel vegetal e deu-lhe uma dentada. O leão
levantou-se, deu uns passos na direção do masai
e agachou-se em frente dele. O masai estendeu
a mão que segurava um pedaço de pão e o leão
comeu. Comeu a mão do masai.

E logo a concièrge portugaise avisou o franciú
do décimo étage, M. Cocq que o elevador
não marchava. O Cocq olhou desdenhoso
para o joanete que, antecipando a provação,
lhe lançava ondas waikikianas de dor. Bom
augúrio, pensou o Cocq. A concièrge
ofereceu-lhe cama e uma ginginha caseira,
que o decoro proverbial do Cocq lhe mandou
refusar. A ginginha.
O marido da concièrge, que estava no trem de
aparar as unhas dos pés, ao princípio estranhou,
mas a concièrge exibiu de forma absolutamente
indecorosa as avantagens de partilharem
o apartamento solarengo da mezzanine
que o marido se resignou e voltou para as unhas
dos pés que entretanto parara de aparar.