MELODRAMA MULTICULTURAL




Personagens:
Maria
João (é careca)
Narrador


Ambiente:
Hora de jantar. Sala de apartamento decorado com gosto dúbio. Objetos regionais, tipo Galo de Barcelos. Sofá duplo, três cadeiras e mesa redonda. Pequena bandeira de clube de futebol.


Maria (olhos baixos): João, preciso de falar contigo.
João: Sim, diz lá.
Maria: João, estou farta e cansada! Vou-te deixar!
João: Outra vez essa conversa? Porque é que não começas a andar?
Maria: Oh João, é que não és tu, é o outro....
João: O outro? Qual outro?
Maria: O outro João, que és tu, às vezes!
João: Pronto! Agora é que estragste tudo! Tu tens outro homem? Outro João?
Maria: Arre! João, que além de careca és estúpido!
João: Deixa lá a minha careca, se não começo a falar das tuas varizes!
Maria: Das minhas varizes? Ah agora já não gostas! Mas quando me quiseste levar p’ra cama dizias que as minhas varizinhas até pareciam o mapa dos rios do Brasil! Nunca percebi isso, mas achei que devia ser coisa bonita, tu falas tanto das mulheres do Brasil!
João: Mulheres do Brasil? Eu nem conheço nenhuma brasileira! Bem, com a exceção da Creuza, mas essa é mais portuguesa que tu, até já canta o fado!.
Maria: A Creuza canta o fado? Explica lá isso bem explicadinho, Joãozinho!
João: Bem.... nunca te disse porque não veio a propósito, mas Creuza canta no bar do Petrecheque, aquele meu colega ucraniano da construção que te apresentei há dias. Eu disse-te que ele explorava um centro cultural, onde aos sábados à noite fazemos reuniões de trabalho. Não tem nada de mal a Creuza animar as reuniões!
Maria: A Creuza? Olha meu querido, a Creuza durante a semana chama-se Anderson, é padeiro e vem-me trazer os pãezinhos de leite todos os dias depois de tu saíres p’ró trabalho!
João: A Creuza é o Anderson? E vem cá a casa depois de eu sair? Bem, bem, bem ....ó Maria, agora és tu que tens que explicar isso tudo bem explicadinho!
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(ilumina-se o narrador e penumbram-se os personagens principais)


Narrador (na penumbra, sentado num canto da sala): O melodrama continuou mais
ou menos nestes termos pela noite dentro, até o Anderson que também era Creuza
bater à porta, trazendo uma baguette fresca de tamanho respeitável e meia dúzia
de brioches. O Petrecheque chegou logo a seguir para levar o João para o trabalho.
João e Maria, exaustos, confundidos e esfomeados, não tendo já a menor idéia
de como teriam começado a discutir nem de qual era afinal o tema da conversa,
decidiram tomar o café da manhã em animado ambiente multicultural.


(apagam-se as luzes)