A CAPUCHINHA E O LOBO MAU


Já se vê ao longe a nau
que chega de Mindanau,
traz ao leme o lobo mau
e o seu cavalo de pau.
Valha-me S. Nicolau!


Vai para o paço da rainha,
comendo uvas sem grainha,
à espera da Capuchinha,
bem bonita e gorduchinha.
Valha-me Santa Teresinha!


É menina muito fina,
que a cigana leu na sina,
mora logo ali à esquina
no bairro da Serafina.


Sabe escrever em latim
e falar em mandarim
com pós de perlimpimpim
e sintaxe assim assim.


Chega de casa d’avó,
vem cantando o troloró,
aparece o lobo e, sem dó,
rouba-lhe o pão-de-ló!
Valha-me a Senhora do Ó!


A Capuchinha, assanhada,
vai-se ao lobo e sem mais nada,
prega-lhe uma bofetada
que o pôs a dormir na calçada!


Já ia o dia avançado,
o lobo acordou, mareado,
deu um salto, recordado,
e limpou o vomitado.


O Lobo Mau, entretanto,
põe o seu maior encanto
e procura a Capuchinha,
que era loura e bonitinha.


Veio-lhe, então, à memória,
que a Capuchinha, finória,
voltou p’ra casa d’avó
p’ra comer o pão-de-ló!


Pôs-se o lobo a caminhar
e depois de muito andar,
já com dor no intestino,
lá chegou ao seu destino.


Chama o lobo: - ”Ó Capuchinha,
ó mais loura e bonitinha,
de olhos da cor da canela,
vem, por favor à janela!”


- “Quem me chama a esta hora?”


- “É o lobo que te adora!
O lobo que é teu amigo,
e que quer casar contigo!”


- “O lobo? Estás mal da cuca?
Agora deu-te a maluca?
Não quero casar contigo!
Depois chamavas-me um figo
e comias-me ao jantar!”


- “Não, meu amor, nem pensar!
Agora é só vegetais,
batatas e cereais.
Deixei de comer pessoas,
mesmo aquelas muito boas!
E sabes que me deu na bola
de beber só coca cola?
Por favor, tem piedade!
Juro que é tudo verdade!”


- “Pronto, eu vou pensar nisso,
mas assim um compromisso
de viver sempre contigo… humm!
Dizes que és meu amigo
mas tens uns dentes enormes
e ressonas quando dormes!
A tua cauda é bonita,
(não a metas na sanita!)
e é boa para afastar moscas
mas as patas são tão toscas!”


- “Ó Capuchinha, olha lá,
já pensaste como será
quando tivermos um filho?
Nariz preto, cheio de brilho,
igual ao meu, tás a ver?
E bons dentes para morder
quem lhe puxar as orelhas …
ou para comer as ovelhas!”


Mas a Capuchinha, vivaça,
percebeu logo a trapaça
que o lobo lhe estava a armar
e não se deixou enganar!
Disse ao lobo “Espera aí,
tenho que ir fazer xixi”.
Fechou-se na casa de banho,
assoou primeiro o ranho
e ligou para o caçador!
- “Ó caçador, faz-me um favor,
estou aqui fechada em casa,
o lobo que me atanaza
está na sala à minha espera,
e olha que ele é uma fera!
Preciso que venha agora
e o leve daqui para fora!”


-“ Pode ficar descansada,
estou aí não tarda nada”


E assim foi. O caçador,
que era homem de valor,
veio a correr e a saltar
para a capuchinha salvar.
Estava quase a dar-lhe um tiro
quando se ouviu um suspiro!
Era o lobo que gritava:
- “Não me matem, gente brava,
eu não sou um animal,
sou um príncipe real!
A bruxa me enfeitiçou
e num lobo me tornou!
Mas ó querida Capuchinha,
se me beijares a pontinha
do meu focinho postiço,
acaba para sempre o feitiço
e já poderemos casar!
A Capuchinha pôs-se a pular,
muito feliz e contente!
E vamos, ó minha gente,
vamos lá cantar vitória!


E assim acabou a história!