ISABEL


Minha mãe minha irmã
imagino-te triste
onde quer que estejas.


E espero que estejas arrependida
de me teres deixado perdido num mundo
onde as coisas não faziam sentido.


Seria egoísta, aceito,
mas não têm as crianças direito de ser egoístas?


Vivia confundido. Confundido e perturbado
como aqueles poemas que vogam,
indecisos, entre o passado e o presente.


E as noites eram escuras, feias intermináveis,
povoadas por caminhos que marginavam abismos
e bolas pretas gigantes que rolavam
até quase quase me esmagarem.


A família desmembrada em bocados dissonantes
qual puzzle sempre inacabado
onde o pai ausente era a peça crítica
que me fazia sentir diferente junto
dos pais dos outros meninos.


Queria fazer perguntas mas a voz,
ora se prendia na garganta,
ora tropeçava nos dentes como se tivesse
medo de saber as respostas e
as palavras saíam hesitantes
e partidas em pedaços.


E nunca perguntei. Nunca perguntei.
Nunca quis saber. Nunca quis saber.
Até hoje.


E as noites continuam a ser escuras, feias, intermináveis.


Março 2013