Na semana passada, tive um estranho pesadelo. Assim foi que, no mundo, para bater pregos, as pessoas usavam pedras, porque não era conhecido outro método. 

Porém, muitos anos antes, alguém já havia inventado o martelo. Mas apenas poucos sabiam disso. Esses poucos, que apoiaram aquela invenção, chamaram a si mesmos os “martelistas”. Organizaram-se em clubes e associações. Portavam uma insígnia no peito: um pequeno martelo. Mas infelizmente, em vez de usar seu martelo na prática e assim, pelo exemplo, convencer os outros de sua utilidade, incessantemente disputavam ou discutiam por coisas sem importância. Durante o tempo todo, eles conversavam entre si sobre o quão bons eram seus martelos, mas nunca os usavam para fins práticos na vida real. E não poucos acrescentaram mudanças a seu próprio martelo, para que ele ficasse mais redondo e mais se assemelhasse ao aspecto de uma pedra. 

A maior associação martelista era a Associação Pangaláctica do Martelo, que editava a revista “Martelo”. Uma vez ao ano, sob sua organização, reuniam-se os principais martelistas, sempre numa cidade diferente do mundo. Lá, sobre um palco e atrás de uma longa mesa, sentavam-se os organizadores do evento, sob a enorme bandeira dos martelistas, com um grande martelo no canto esquerdo superior. Martelistas de todos os países vinham sobre o palco e um após o outro, com uma grande batida de martelo, saudavam os presentes, vindos de todas as partes do mundo. Freqüentemente milhares de martelistas participavam dessa Convenção Pangaláctica anual. Mas sua eficiência para divulgar as vantagens do martelo na sociedade era quase nula, mesmo se participassem dezenas de milhares de pessoas. No entanto, dos martelistas ela pedia contribuição em dinheiro e energia. Grande parte da energia da Associação Pangaláctica do Martelo esgotava-se no preparo da convenção. No começo da história do martelo, os primeiros pioneiros usavam-na para a prática, mas depois, porque os martelistas usavam seu tempo e recursos financeiros para organizar ou participar de tais convenções e editar diversos jornalecos sobre temas martelistas, não sobrou nem força nem dinheiro para usar essa ferramenta na vida real. Por este motivo, a sociedade não podia ver como funcionava bem o martelo e seguir o exemplo dos martelistas. As pessoas comuns geralmente os consideravam loucos, aparentemente devido a seus estranhos rituais. E um argumento freqüente contra o martelo era sobre ele ser uma coisa artificial, em oposição às pedras, que são naturais. 

Por causa da rotina e da incompreensão, os martelistas mais e mais se isolavam da sociedade. Tendo esquecido os objetivos originais, eles não mais trabalhavam para o uso do martelo no mundo exterior. Manuais de instrução sobre a martelagem não se comprava em livrarias normais, mas apenas naqueles lugares pertencentes à estrutura martelista. Não raro, eles chamavam o martelo “nosso instrumento”, ignorando que ele não pertencia aos martelistas somente, mas a toda a humanidade. E eles não o usavam para bater pregos, porque se ocupar do martelo tornara-se um fim em si mesmo. Muitos deles até consideravam que o martelo era uma ferramenta nobre demais para sujar-se no uso prático. Uma pessoa, que seguisse tais rituais e se ocupasse com tais frivolidades era chamado de “bom martelista”. Se alguém tentasse ensinar ou vender serviços relacionados às vantagens do martelo, este era chamado “mercenário”. E sempre havia os que cinzelavam e adicionavam ornamentos a seus próprios martelos, de modo que eles se tornavam inúteis. 

Os martelistas consideravam-se uma comunidade. Eles até a chamaram Martélia. E esse país virtual tinha, além da já mencionada bandeira, também um hino, cujo refrão era: 

Viva o martelo!

Viva o martelo!

Viva o santo martelo! 

Todo suado eu acordei. E, aliviado, me dei conta de que tudo não passou de um pesadelo. O despertador já indicava as 8 horas. Por isso, apressado me preparei para participar da reunião de sábado no clube de Esperanto... 

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Título original do conto: “La martelistoj”. Traduzido do Esperanto por Fernando Maia Jr. Do livro: “La planedo de la senfelaj simioj kaj aliaj rakontoj” (O planeta dos macacos sem pele e outros contos). Thierry Salomon. Ed. Abonasoft, Budapest, 2005. ISBN 963 218 213 8. 

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