Para o governo espanhol, patrocinador do evento, a magreza dá mau exemplo e estimula doenças como anorexia e bulemia. A Sociedade Espanhola de Endocrinologia e Nutrição estipulou que as jovens com índice de massa corporal inferior a 18 (56 quilos para 1,75 metro de altura) fossem cortadas dos desfiles da semana de moda em Madri. Com isso, entre 30% a 40% das modelos foram descartadas”. (O Estado de S.Paulo, 15/09/2006)

A notícia rendeu matérias em todos os jornais, aqui e lá fora. Matérias que deram voz a estilistas revoltados, temendo que as próximas medidas de governos tentem determinar cores e até padrões para as roupas. Ninguém, no entanto, deu importância aos dados divulgados pelo governo espanhol:

“A anorexia nervosa afeta 25 pessoas com menos de 25 anos a cada 100 mil habitantes – 90% mulheres. É um distúrbio ou distorção da imagem corporal; não uma perda de apetite. No caso da bulimia nervosa, trata-se de um quadro caracterizado por episódios de ingestão excessiva e incontrolada de quantidades variáveis de comida, seguida de vômitos espontâneos ou provocados, que ocorrem várias vezes por semana e por vários meses”.

A comoção da imprensa “especializada” se justifica: se as modelos começarem a ganhar massa corpórea e se tornarem mais parecidas com seres humanos – e menos com inatingíveis e frustrantes modelos de beleza – revistas especializadas, seções de gente e outros nichos da futilidade vão perder um bom número de personagens e chamadas de capa. Essas mulheres irreais enriquecem não só páginas de moda, mas as páginas dedicadas às celebridades e seus acompanhantes, famosos ou não.

Quilos a menos

Mexer no mundo da moda e seus padrões é mexer com o sagrado mundo das celebridades, mas, mesmo assim, aprendemos coisas bem interessantes graças ao interesse que o tema despertou na mídia.

Ficamos sabendo, por exemplo, que os estilistas preferem as magras porque as roupas ficam mais bonitas. Mas não tiveram que responder a uma perguntinha muito simples: se as roupas são feitas para as mulheres magérrimas, que garantia temos de que poderão ser usadas pela mulher brasileira padrão (manequim 40 a 44)?

Ficamos sabendo também que embora as pobres consumidoras se desesperem com o tamanho cada vez menor das roupas, elas não estão sozinhas em sua dor. Sair do peso (os famosos 20 quilos a menos que a altura do IMC – Índice de Massa Corporal) é o grande pesadelo na vida das modelos, que perdem trabalho se não estiverem dentro do que alguns estilistas chamam de “padrão de nossa época”.

Um padrão que a mídia ajuda a divulgar, em matérias e anúncios, como a campanha de uma indústria farmacêutica que pergunta: “O que você faria com alguns quilos a menos?”. As respostas vão da moça que diz que diminuiria o comprimento da saia e prolongaria as férias à mulher de trinta e poucos anos que afirma não poder responder, pelo menos no horário livre da televisão.

Esclarecimento contínuo

Se o objetivo era acabar com a auto-estima das espectadoras, foi plenamente atingido, porque nenhuma das entrevistadas pode ser qualificada como gorda, muito menos obesa. São mulheres jovens, bonitas e saudáveis, mas que, com toda a certeza, não estão com o IMC aprovado pelos costureiros e pela mídia em geral. Mulheres que, atormentadas pela mídia e pela publicidade, acreditam que a felicidade depende de ter o corpo de uma modelo magérrima.

E a mídia, que deveria ser a primeira a fazer o alerta sobre os problemas de saúde que as modelos enfrentam para ter o look desejado pelos estilistas, acaba endossando um padrão irreal – e prejudicial à saúde.

Mas há esperanças. Depois da Espanha foi a vez da Itália se revoltar contra os costureiros:

“Na Itália, a prefeita de Milão, Letizia Moratti, disse a um jornal italiano esta semana que vai procurar impor proibição semelhante na semana de moda de sua cidade, a não ser que seja encontrada uma solução para as modelos de aparência doentia. (O Globo, 12/09/2006).

Assim que o movimento se alastrar pelo primeiro mundo, os estilistas brasileiros vão aderir e, na carona deles, a mídia vai adotar novos padrões. Talvez então as revista femininas passem a tratar anorexia como doença que merece um esclarecimento contínuo e não apenas raras matérias feitas quando a vítima é uma celebridade. Ou, quem sabe, assumam uma postura mais crítica quanto aos padrões estéticos que ela mesma ajuda a difundir.