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| Tribunal Boa Hora.1.Lisboa |
Uma ordem religiosa deu nome ao lugar, após reabilitar a igreja do convento ali existente. Ora quem passa pela Rua Nova do Almada – quer subindo, a caminho do Chiado, quer descendo, rumo às imediações do Terreiro do Paço – encontrará facilmente o tribunal mais mediático e mais velho de Lisboa. Situa-se ele num largo chamado da Boa Hora, pertencente à freguesia dos Mártires. As histórias abundam por estas bandas. Ensina mestre Castilho que ali funcionou num Pátio das Comédias, ou seja, um antepassado dos nossos teatros. Era de bom tamanho, já que chegava à esquina da Calçada de São Francisco.
Mas no século XVII, mais exactamente em 1633, surgiu no local um convento, construído com donativos do povo. Para lá foram os Dominicanos Irlandeses, que ali se mantiveram por 35 anos. Tendo os Irlandeses deixado o convento, deram eles lugar aos congregados do Oratório de São Filipe Nery, vulgo “oratorianos”. Estes tinham assim naquele edifício como que um prolongamento do vizinho convento do Espírito Santo da Pedreira, erigido sensivelmente no sítio onde temos hoje os Armazéns do Chiado. Mas os oratorianos não aqueceram muito o lugar. Em 1674, chegou ali a ordem religiosa que por mais tempo lá se manteve: a dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho. Foram estes frades que acabaram por “baptizar” o largo e o sítio em volta. Na verdade, reformaram a velha igreja que servia o convento e colocaram o novo templo sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Hora.
Rezam as crónicas que esta igreja foi edificada graças aos auxílios monetários de fidalgos vizinhos, os senhores de Barbacena, cujo palácio se erguia nas imediações da casa religiosa. O pior viria a acontecer em 1755 a casa dos frades da Boa Hora, à semelhança de quase toda a Baixa, ruiu por completo. E o palácio dos Barbacenas também. No entanto, a reconstrução não se fez esperar demasiado. Ou seja: o edifício do Tribunal da Boa Hora não corresponde, evidentemente, ao primitivo convento.
Foi sol de pouca dura. Em 1834, era extintas as Ordens religiosas. Foram então instalados no velho convento os tribunais de comarca. Nas, além dos serviços judiciais, também foram ali abertos vários calabouços – e , segundo testemunhos da época, não eram exactamente convidativos. E assim se criou mais uma designação meio anedótica: Lisboa, que tem um cemitério dito dos Prazeres, ganhou também um tribunal e uma cadeia chamados da Boa Hora! Foi este, aliás, durante longos anos quase o único tribunal da cidade, funcionando como se fosse ali o Palácio da Justiça. O autêntico, contudo, só veio a aparecer nos anos 60 do século XX.
Uma curiosidade esteve, durante muito tempo, ligada a este sítio da Boa Hora ali existiu, à ilharga do convento, um pote destinado à recolha de esmolas, um migalheiro gigante onde os transeuntes deixavam o seu óbulo destinado a obras de caridade. Por cima desse improvisado cofre, estava um painel alusivo às almas do Purgatório. Daí que ao sítio fosse dado o nome de Pote das Almas. Tal designação prolongou-se muito para além da existência do Pote e abrangia toda aquela zona que ia da actual Rua Nova do Almada até à Rua do Ouro.
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