Devemos falar de uma só cultura ou de muitas culturas? Mesmo dentro de um país, existe uma cultura homogênea, ou várias culturas que se sobrepõem, coexistindo lado a lado? Na verdade, basta olhar ao nosso redor para sabermos que há muitas culturas dentro de cada país. Para além de um ser cultural, o Homem, é também um ser multidimensional, pois tem uma série de virtudes que lhe permitem captar e organizar o mundo em que vive, de diferentes modos,isto é, o Homem apropria-se e domína o mundo sob várias dimensões ou prespectivas. Assim sendo, visto que a cultura é uma totalidade onde se conjugam, organizados de forma dinâmica, diversos elementos materiais e simbólicos como conhecimentos, crenças, valores, leis e normas, formas de arte e expressão, costumes e práticas sociais, faz mais sentido falar em culturas do que apenas em cultura, pois a história pessoal de cada um de nós entrelaça-se a cada momento na história dos outros e na do seu tempo, é circunscrita pela sua vivência cultural e pela sua posição social. Uma vez que, nós somos produtores de cultura, agentes da sua construção, transmissão e tranformação, devido ao facto, que já vimos á pouco, que a nossa história pessoal entrelaça-se na dos outros, é inevitável a ocorrência de um fenómeno designado aculturação. Este fenómeno resulta do contínuo contacto entre grupos de indivíduos pertencentes a diferentes culturas, assim como as mudanças no conjunto de comportamentos, práticas, crenças, valores comuns aos membros de uma cultura, ás formas particulares e padronizadas de ser e viver de uma comunidade, ou seja, os seus padrões culturais. Nas suas actividades,histórias, na teia das suas relações e interacções, as pessoas são agentes não só de transformação de si e dos outros, mas também agentes de transformação das suas comunidades, sociedades e culturas. É através deste processo dinâmico de integração de um índividuo numa dada cultura, designado, socialização, onde cada pessoa interioriza, e aprende, os elementos socioculturais enquanto participa, age e se comporta, em diversas relações, práticas e instituições, contribuindo deste modo para um grande enriquecimento cultural de todos os indivíduos implicados durante este processo de convivência sociocultural.

Por exemplo:

No caso do Brasil, temos contribuições culturais da colonização pelos portugueses, dos povos indígenas que habitavam estas terras, dos africanos que foram trazidos como escravos, dos imigrantes italianos, alemães, japoneses, coreanos. O que mantém a unidade, entretanto, entre essas várias culturas é a ocupação de um mesmo território, o uso da mesma língua, o compartilhamento de uma mesma história nacional. É possível, entretanto, falar também de cultura caipira, cultura rural, cultura sertaneja, cultura urbana, cultura nordestina, cultura paulista, cultura carioca e assim por diante, apenas considerando a diversidade geográfica do país e os diferentes tipos de vida de cada um desses grupos. É só comparar a cultura do Rio Grande do Sul com a do Amazonas para sabermos que as diferenças também são imensas. Do ponto de vista geográfico, o estado do Rio Grande do Sul é dominado pelos pampas, ou seja, por grandes planícies de vegetação rasteira, adequadas para a criação de gado em grandes fazendas. O clima é subtropical, com quatro estações bem demarcadas. O tipo de ocupação dessas terras dá origem à cultura gaúcha, da qual fazem parte o chimarrão, a bombacha, a chimarrita, o churrasco feito a céu aberto, um vocabulário adequado às necessidades e tradições da região. Essa cultura, ainda hoje, é preservada nos Centros de Tradição Gaúcha, que se encarregam de transmiti-la a crianças e jovens, mantendo-a viva no quotidiano de seu povo. Na Amazônia, ao contrário, a presença da floresta, dos grandes rios e dos igarapés, das várias tribos indígenas levam ao florescimento de uma outra cultura, mais ligada ao modo de vida ribeirinho, dependente da pesca e da colheita. As histórias, as festas, os mitos mencionam os animais da floresta que trazem sorte ou azar.