Falha, desilusão, insucesso, tristeza, dor, ou talvez, por alguma razão para além do que se pode compreender – OPORTUNIDADE. Hoje percebi, hoje finalmente percebi o lugar onde tudo deve estar, pelo menos hoje acredito que por pior que seja a situação, por mais perdidos que estejamos, existe e existirá sempre um caminho. Estará já ele traçado para nós? Talvez, mas ninguém me pode negar o direito de tentar escolher a minha direcção, o meu sentido, a minha velocidade.
Deixamo-nos ir abaixo com facilidade, permitimos que qualquer pedra no nosso caminho se torne um estorvo, não olhamos à volta, não conseguimos perceber o quão abençoados fomos, não escutamos, não olhamos, simplesmente continuamos em frente, tentamos sobreviver. Concentramo-nos em nós, na nossa dor, nas nossas dificuldades, a verdade é que se nós não nos preocuparmos com elas dificilmente alguém se preocupará, mas talvez se por um dia, um só dia, olhássemos para o lado e nos preocupássemos com os problemas deles e não com os nossos, talvez se os ajudássemos, talvez se simplesmente os escutássemos, talvez, por milagre eles também se preocupassem, também olhassem, também escutassem.
Hobbes disse: “ o Homem é naturalmente mau”, não estou preparada para aceitar esta afirmação. Nada é naturalmente mau, as coisas são aquilo que fazemos delas, aquilo que nelas queremos ver. Só porque alguém nos prejudica, nos maltrata, nos deita abaixo, não quer necessariamente dizer que seja má pessoa, simplesmente quer dizer que está perdida. Alguém que ama, que olha para fora e não só para si mesmo, que ouve, que chora por ver outro sofrer, que sente os outros com a mesma intensidade que se sente a si mesmo, que dá de si mesmo sem esperar que lhe dêem nada em troca, esses poucos sortudos que conseguem transpor para o dia a dia aquilo que é em todos nós nato, esses são os felizes. Não são melhores nem piores que todos os outros, talvez sejam especiais, talvez estejam mais abençoados que qualquer outro mero mortal, mas a verdade é se ao menos tentássemos fazer o mesmo, amar, se ao menos nos amassemos uns aos outros, se ao menos víssemos para além do que os olhos podem ver, talvez se deixássemos a alma escutar, se deixássemos que o mundo nos tocasse, se nos tratássemos como iguais, como seria isso? Se ninguém fosse mais especial, se nos contentássemos todos com o facto de sermos tão especiais como todos os outros seres, e se por um momento que fosse, nos apercebêssemos de que não estamos sozinhos, que nos temos uns aos outros, que estamos nesta jornada juntos? Se ao menos pudéssemos amar sem pedir nada em troca, se ao menos. Se ao menos pudéssemos ver as incapacidades como capacidades, as perdas como ganhos, o mau como bom.
Porquê? Porque é que o ser humano escolhe sempre o caminho mais fácil, aquele em que não tem de ceder em nada, aquele onde só ele interessa? Porque é que queremos sempre mais que o que os outros têm? Porque é que magoamos outras pessoas, outros seres, intencionalmente? Amor, já ninguém sabe o que é o amor? Já ninguém sabe amar? O que nos aconteceu? Para onde nos dirigimos? Porquê tanta dor? Porquê?
Andamos pelo mundo calculistas, sempre de pé atrás, sempre protegidos por altas muralhas, que impedem que nos pisem, que nos esmaguem, ou pelo menos deveriam impedir. Não nos damos ao mundo para que o mundo nada nos possa tirar, impedindo assim também o mundo de nos dar alguma coisa. Sentimo-nos mal, sentimo-nos tristes, choramos sem saber porquê, não falamos sobre isso, não fazemos nada, esperamos, ansiamos o dia em que esse ser supremo chamado Deus virá ao nosso encontro, esse criador que tudo fez e tudo controla, demasiado atolados pelos nossos próprios erros para ver que Deus reside em nós. Deus está em tudo, em todos, está naquele sítio que a ciência não consegue explicar, naquele cantinho que só conseguimos sentir e não explicar. Nós somos Deus. Como podemos nós perguntar “Onde está Deus?”, quando nós não sabemos onde estamos, divididos sem motivo, sem amor, sem ligação, separados como se não precisássemos uns dos outros. Destruímos o que é Deus e não reside nos humanos, reclamamos por direito aquilo que não pertence a nenhum ser, aquilo que deve ser dividido, a nossa mãe, a natureza. Matamos o Deus que tanto invocamos, procuramo-lo sem cessar, à espera que ele faça um milagre, com os olhos demasiado turvos para perceber que nós somos o milagre. Que a vida é o milagre!
Se ao menos aplicássemos o que sabemos, se ao menos nos amássemos, se ao menos acreditássemos. Porque é que não conseguimos olhar, escutar? Porque é que não conseguimos perceber? Se ao menos nos amássemos…Se ao menos acreditássemos no milagre.

Se ao menos…Porquê? Talvez se…