Às vezes só quero acordar e perceber que não existe Mundo, não existe vida, que não sinto, não vejo, que sou apenas uma partícula perdida na imensidade do Universo, mais um grão de poeira cósmica. Sempre me perguntei de onde vínhamos, a teoria que me apresentavam como resposta era sempre a mesma: Deus criou o Mundo e todos os seres que nele habitam. É lógico que aquilo não me chegava, mas então de onde é que vinha Deus? O meu pai tem a teoria de que existem vários Universos, uns dentro dos outros, durante algum tempo achei que talvez fossemos apenas um grão de areia num outro mundo qualquer, até cheguei a imaginar que talvez fossemos como moscas para outros seres gigantes e andávamos no céu deles às voltas. A certo ponto simplesmente deixei de pensar nisso, afinal de contas de que me valia saber onde tudo tinha começado? Reduzi-me à minha insignificância, quando me apercebi do quão grandes nós, seres humanos, somos. É pena não valorizarmos a dádiva que nos foi oferecida. Viramo-nos uns contra os outros, mesmo que sem razões, às vezes o facto do ser humano ser considerado racional parece-me quase uma anedota. Onde chegámos nós? O que estamos a fazer ao nosso Mundo? Quisemos ser líderes e condenamos todos os nossos subordinados connosco. Gostava de acreditar que a minha geração pode fazer a diferença, que podemos remediar os erros do passado, mas não consigo. Olho para nós e vejo um bando de anormais convencidos de que são alguém na história, uns conformados que se pudessem não passavam dos 17 anos e viviam para sempre na casa dos papás. Todos já feridos, sujos, já nenhum de nós guarda a inocência no olhar, frutos de casamentos falhados, agredidos e mutilados por erros de uma geração que não soube ser livre. Olhamos para trás e olhamos para infâncias difíceis, quase não fomos crianças, obrigados a amadurecer antes do tempo, com demasiados sentimentos reprimidos desesperados por sair para fora, bombas prontas a explodir a qualquer momento. Somos os frutos de uma sociedade estagnada.