Dois elefantes conversavam animadamente. De tão distraídos com a conversa, não perceberam que o sinal luminoso havia mudado de cor e estava aberto para os automóveis. Já haviam começado a atravessar a rua quando ouviram o ruído de freios cantando no asfalto e uma forte buzinada. Assustados por haverem escapado de um atropelamento, os elefantes subiram novamente à calçada e, envergonhados, pediram desculpas ao motorista que gritava irritado, com a cabeça para fora da janela:
_ Não sabem que elefantes não podem passear pela cidade? Voltem logo para o circo, o zoológico, a África - seja lá de onde vieram - ou eu chamo a polícia.
Os elefantes ficaram aguardando disciplinadamente que a luz verde se acendesse para os pedestres, para que pudessem continuar sua caminhada naquela bela tarde de primavera. Um senhor de cabelos brancos, também na calçada, à espera do sinal verde, comentou com a senhora gorda de vestido de bolinhas ao seu lado:
_ Muito estranho, não acha, ver dois elefantes passeando em Ipanema? E mais estranho ainda é que muita gente disse que tem visto outros casos assim.
Ao que a senhora gorda respondeu, tremendo de indignação:
_ Certamente, certamente. Além de estranho é muito incômodo. Elefantes ocupam muito espaço, como eu vou andar pelas ruas se esses bichos continuarem por aí? Ontem mesmo, num prédio comercial, um elefante sozinho encheu todo o elevador. Para poder fechar a porta o ascensorista teve que enrolar a tromba do bicho, com a ajuda do faxineiro. Isso levou uns dez minutos e todo mundo teve que ficar esperando na fila. Minha sobrinha estava lá e perdeu a hora marcada no dentista.
O senhor de cabelos brancos tornou a falar:
_ Sabe me dizer aonde ia o elefante? Ia fazer alguma consulta?
_ Pois essa é a parte mais misteriosa, ninguém sabe o que ele foi fazer lá. O ascensorista garante que deixou o passageiro quadrúpede no último andar. Ninguém o viu descer ou sair do prédio; nem os repórteres que tinham vindo logo que foram avisados, para fotografar a cena incrível de um elefante saindo de um elevador na cidade do Rio de Janeiro, onde, habitualmente, elefantes não passeiam pelas ruas nem tomam elevadores.
A essa altura outras pessoas rodeavam a senhora gorda, interessadas no que ela contava. Ela, sentindo-se muito importante por ver tanta gente prestando atenção às suas palavras, contou que no fim da tarde, hora de fechar as portas do edifício, o síndico havia mandado que fizessem uma busca pelos corredores, salas e escritórios, mas nenhum elefante foi encontrado. E segredou:
_ Uma velhinha, que estava numa janela do prédio em frente, jura que viu um elefante levantando vôo do terraço e tomando o rumo das montanhas.
_ Para mim, disse uma moça, isso tudo não passa de alucinação. Elefantes não passeiam pelas cidades, não tomam elevadores e, sobretudo, elefantes não voam!
Mas os dois elefantes ali estavam, e com certeza não eram alucinação. Um rapaz que estava bem ao lado dos bichos cutucou um deles com a prancha de surfe, para ver se eram reais, e o elefante o afastou delicadamente com a tromba.
O sinal abriu nesse instante e as pessoas atravessaram; os elefantes também, e entraram no parque, dois quarteirões adiante.
Os frequentadores do parque, os pipoqueiros e os fotógrafos lambe-lambe gritaram assustados, mas umas crianças que brincavam por ali e só conheciam elefantes de circo ou de zoológico largaram as bicicletas e os skates e vieram rodeá-los, curiosas para vê-los de perto. Um menino mais atrevido até tentou subir pela perna de um deles, como se estivesse subindo em uma árvore, mas a mãe dele puxou-o logo para baixo e arrastou-o para fora do parque.
Vendo-se sozinhos os elefantes se sentiram à vontade para fazer o que tinham vindo fazer ali. Caminhando pausadamente, como costumam caminhar os elefantes, foram até junto de uma árvore, levantaram pesadamente uma pata, e se aliviaram.
Quando a polícia chegou não encontrou nada; os únicos animais à vista eram os gatos que moravam às dezenas no parque. Mas duas poças enormes, com o cheiro inconfundível de xixi, provavam que animais de grande porte haviam andado por aqueles caminhos. Só que ninguém os tinha visto sair. E ali dentro com certeza já não estavam. Ao que parece, os elefantes não só apareciam nos lugares mais inesperados, como desapareciam de forma mais inesperada ainda.
À noite, na televisão, o locutor anunciou que mais elefantes tinham sido vistos, na praia, num shopping-center comendo dúzias de hambúrgueres - que evidentemente não pagaram pois elefantes não possuem dinheiro -, e devorando todas as alfaces de uma barraca de feira. Foram seguidos, para se descobrir de onde vinham, mas, de repente, ao virar alguma esquina, os elefantes haviam se evaporado. O jornalista que fazia o comentário das notícias disse que na opinião dele tudo não devia passar de campanha publicitária de algum produto novo a ser lançado.
Um elefante revolucionário visitou os circos da cidade e convenceu os colegas a não trabalharem mais de graça para ninguém e a fugirem na sua companhia. As sociedades protetoras de animais e os defensores da natureza se entusiasmaram. Talvez o exemplo fosse seguido por todos os animais em cativeiro. Quem sabe começaria no Brasil a revolta mundial dos bichos?
Os donos de circo, furiosos com o prejuízo, queixaram-se ao chefe de polícia. Elefantes eram mercadoria cara, importada, paga em dólares, e, por lei, pertenciam a quem os tivesse comprado. Todos os que dessem proteção aos fujões deveriam ser presos como cúmplices, e os animais devolvidos aos seus donos. Mas as crianças apoiavam os defensores da natureza, mesmo se sentindo um pouco tristes porque gostavam muito de ver domadores de circo fazendo com que elefantes enormes se equilibrassem sobre tamboretes, e outras proezas.
Jornalistas de todo o mundo chegavam ao Rio de Janeiro para ver e noticiar a novidade. O prefeito começou a gostar da invasão de elefantes. O Carnaval só acontece uma vez por ano, o réveillon também. Muitas cidades pelo mundo afora possuem praia e montanhas. Mas o Rio de Janeiro era a única metrópole em que elefantes freqüentavam a praia e o shopping, tomavam banho de mar e jogavam futebol na pracinha. Em nenhum outro lugar do mundo elefantes dançavam diante dos restaurantes com mesa na calçada, para ganhar as pizzas que os freqüentadores pagavam para eles. Isso atrairia muitos turistas.
Mas havia problemas também. Os garis ameaçavam fazer uma greve por aumento de salários. Já tinham trabalho demais recolhendo os montinhos de cocô que os cachorros deixavam nas ruas. Imaginem os montes enormes de cocô que eram obrigados a varrer, agora que centenas de elefantes passeavam pelas ruas, e muitos mais chegavam todos os dias. Para resolver o problema sem prejudicar o turismo, ficou combinado que cada gari receberia uma gratificação extra por cada cocô de elefante recolhido.
Uma empresa fabricante de refrigerantes propôs ao prefeito construir por sua própria conta um elefantódromo, com camarotes e arquibancadas, onde os turistas, nacionais e estrangeiros, poderiam assistir a desfiles de elefantes. Antigos domadores de elefantes, desempregados desde que todos os elefantes haviam fugido dos circos, seriam chamados para organizar e comandar o desfile. Os animais seriam decorados com purpurina, levariam no dorso alegorias, seguidos por bandas de música. Haveria rodeios de elefantes, corridas de elefantes E concursos de miss, que desfilariam sobre o dorso de elefantes, jogando beijinhos para o público, por que não? A marca do refrigerante que patrocinava o espetáculo apareceria em tudo, nos tambores da banda, pintada com purpurina no lombo dos elefantes, nos saiotes das ajudantes dos domadores.
Milhares de operários foram contratados para erguer às pressas o elefantódromo, que consumiu muitas toneladas de ferro e concreto. Ao lado do elefantódromo foram derrubados vários quarteirões de casas para que fosse construído um imenso curral de elefantes.
Então, quando a obra ficou pronta, mandaram buscar na África os melhores caçadores para prender e conduzir os elefantes ao curral. A tarefa levou dois meses - é muito fácil derrubar um elefante com um tiro de fuzil, difícil mesmo é laçá-los e arrastá-los até o curral.
Na noite da inauguração o elefantódromo estava lotado. O presidente da república, o governador e o prefeito estavam presentes, com suas famílias. A alta sociedade ocupava os camarotes. Os donos de agências de turismo estavam felizes porque tinham vendido muitos ingressos para estrangeiros.
De repente ouviu-se um ruí¬do semelhante ao bater de asas de pássaros, só que infinitamente mais forte. O ruí¬do aumentava e, um a um, os elefantes foram vistos se erguendo no ar, acima do muro do curral, batendo freneticamente as orelhas, como se fossem asas. Uma nuvem de elefantes voadores passou sobre o elefantódromo, cruzou os céus da cidade em direção ao mar, e foi sumindo, sumindo no horizonte.