Nesta manhã de domingo a mulher tenta decidir qual biquíni lhe cai melhor. Só recentemente foram aceitos no clube, e faz questão de lá ser vista o maior número de vezes possível. Sabe de cor o nome de garçons e porteiros, isso lhe dá um ar de frequentadora antiga.
O marido da mulher toma o café e lê o jornal enquanto pensa que amanhã é segunda-feira e terá uma reunião difícil com o banqueiro. Lembra-se de que tem uma entrevista marcada com o ministro, para esta semana, e de como seria oportuno mencioná-lo no clube esta manhã. Talvez tenha tempo de passar à tarde no apartamento da amante, e se regozija por ter uma amante jovem e bonita que ainda não precisou fazer plástica.
O filho do casal ainda dorme, de ressaca. Ele acha o domingo um dia muito chato. A praia fica cheia de suburbano, a mãe fica aporrinhando para ele almoçar no clube. Todo domingo ele se propõe começar a dar um duro nos estudos na semana que entra, se não passar no vestibular o pai vai ficar pegando no seu pé. Faculdade pra quê? O velho nunca fez faculdade e ganhou uma nota preta. Pior seria se o pai descobrisse que anda cheirando pó. O velho é careta, nem parece freqüentar a granfinada, pensa que fumo e pó é coisa de vagabundo. Capaz de cortar a mesada, internar numa clínica, essas transas.
A mulher é rica. Ela diz “meu analista”, “meu chofer”, “minhas joias”, “meu marido”, e essas coisas lhe dão segurança e status. Mais ainda – ao dizer “meu analista” parece-lhe estar a demonstrar o quanto é sensível, uma mulher preocupada com assuntos existenciais.
O marido da mulher está construindo uma casa num condomínio de luxo. Uma casa dessas mostrará a todos que nela entrarem que ali mora um homem bem sucedido, e portanto, podem confiar-lhe seus negócios e seu dinheiro.
O filho do casal costuma jogar tênis e malha numa academia. É sempre visto na companhia de belas modelos e faz questão de confidenciar que dorme com todas elas. Naturalmente possui um carro esporte importado.
A mulher nasceu e foi criada no Méier e se sente desgostosa porque a menosprezam por isso, às suas costas, é claro. Amargura-se por não poder ostentar antepassados ilustres e gostaria de poder dizer que foi amiga de infância de Fulana de Tal, com quem trocaria reminiscências dos anos passados por ambas num colégio aristocrático.
O marido da mulher, ao contrário, faz questão de demonstrar humildade. No convívio com os parceiros, ao falar de seus negócios e da posição que atingiu, jamais se esquece de mencionar o quanto se sente feliz por ser aceito entre eles. Procura fazer sentir aos presentes o quanto foi importante a sua ajuda e como apreciaria poder continuar contando com seus sábios conselhos. Por isso é muito mais estimado do que a mulher, e considerado um sujeito simpático.
O filho do casal não sabe dar valor ao que tem. Na sua idade o pai já trabalhava para ajudar a família e nem sonhava em ter um carro. Mas, acha o filho do casal, isso não tem nada a ver, e o pai é um chato de ficar repetindo essas coisas.
É ainda a manhã de domingo; mas ao correr do dia muita coisa vai acontecer. A mulher receberá um telefonema anônimo de alguém desejoso de preveni-la de que o marido tem uma amante jovem e bonita a quem cobre de presentes. O marido da mulher será informado de que um concorrente obteve o disputado contrato que acabaria de consolidar o prestígio de sua firma. O filho do casal será assaltado numa rua escura, levará uma coronhada na cabeça e ficará sem o seu carro esporte. Por enquanto, a mulher continua escolhendo o biquíni a ser usado no clube, o marido da mulher lê o jornal e toma o café, pensando na amante, e o filho do casal curte sua ressaca jogado sobre a cama.