Foi meu pai quem despertou em mim o gosto pela História, e os avós, pelos causos de família. Duas vertentes que me levaram ao romance histórico.
A avó materna, mineira, falava-me de seus antepassados portugueses Vilhena. E também de sua avó, Maria de Jesus, que lhe falava da própria avó, Iria, casada com um Vilhena que viera dar com os costados no Brasil colonial: bonita, escrevia versos, tinha uma irmã também bonita e poetisa, e ambas haviam tomado parte em uma revolução lá em Minas. Anos mais tarde, pesquisas para um romance infanto-juvenil sobre os bandeirantes levaram-me a um livro sobre Amador Bueno da Veiga, da autoria de um primo historiador e genealogista, Aureliano Leite. Entre os descendentes de Amador listados por Aureliano estava Maria Josefa da Cunha Bueno, casada com José da Silveira e Souza e mãe de Bárbara Eliodora, mulher do poeta inconfidente Alvarenga Peixoto, e de Iria Claudiana, casada com Matias Gonçalves Moinhos de Vilhena. Então era a Inconfidência Mineira a “revolução” à qual se referia minha avó! E surgiu mais um romance histórico, desta vez para adultos: Inconfidências mineiras.
A devassa da Devassa, de Kenneth Maxwell, minha principal fonte de consultas, revelou-me uma Inconfidência Mineira bem diversa daquela que havia aprendido na escola como um movimento liderado por poetas idealistas. O romance tomou forma diferente do que eu planejara: A Inconfidência havia sido obra de ricos empresários e sonegadores do fisco; Tiradentes, em torno do qual se desenrolaria o drama, era pouco documentado. Em troca, sobre Alvarenga Peixoto abundavam documentos, e cartas suas e a seu respeito, revelando um personagem gabola, esbanjador, bajulador, sempre afogado em dívidas. Mas extremamente simpático. A heróica Bárbara Eliodora narrada pelo primo Aureliano – genealogistas tendem a mitificar seus maiores – não passara de mulher bonita, amante de Alvarenga antes do casamento, dona-de-casa a driblar credores e que promovia suntuosa festa para celebrar o batizado do filho. A família Bueno/Silveira/Alvarenga abundava em episódios novelescos: dívidas, negócios nebulosos, filhos ilegítimos... Das páginas dos Autos da Devassa emerge ainda um Alvarenga amedrontado, que renega os companheiros e escreve na prisão versos laudatórios à rainha Maria I, na esperança de um perdão.
Não é fácil adaptar História a uma linguagem de romance, foi necessário condensar os fatos, pois o acúmulo de informações, louvável numa tese, tornaria enfadonha uma novela. Para simplificar o enredo, omiti os inconfidentes não ligados diretamente aos personagens principais, entre os quais Luiz Alves de Freitas Belo – mencionado em meu livro como “o futuro sogro” de Silvério dos Reis –, em cuja fazenda foi redigida a carta denúncia ao vice-rei. Inconfidências mineiras mal havia sido entregue à editora quando chegou-me às mãos a árvore genealógica de meu avô materno, neto de cafeicultores. E lá estavam como padrinhos, nos assentamentos de casamento e batizado, os nomes de Freitas Belo e de Silvério dos Reis. Nomes aos quais, preocupados apenas com títulos nobiliárquicos e propriedades, os genealogistas não haviam prestado atenção. Os personagens da Inconfidência, em certo momento, haviam convivido estreitamente com os antepassados dos barões do café. Mais uma vez a tradição familiar vinha em auxílio à romancista. Mas, como Sheerazade, deixo essa história para outro dia.