O BÓLIDO

Já não basta ter vivido tanto tantas coisas,
Ter construído,
Ter concluído,
Ter reconstruído tudo tanto tantas vezes?
Ter revisto, criticado, retomado?

É uma coisa mesmo assim de fado, de Sísifo
Esse soerguer-se infindo enquanto existe
Essa crença industriosa que em nós insiste
Refazenda alucinada dentro dos dias.

Burburinho atroz que perturba o sono,
Invade sonhos e desperta no tranco no meio da noite
Amanhecendo sempre novas agonias
É quando a luz e não a escuridão atemoriza
Porque essa mesma luz que então ilumina a janela
Vem trazendo mais azáfama por dentro dela

E depois de tanto estudo, tanta lida
Puxa vida!
Não será já suficiente?

Não estarei vivendo qual bólido automatizado
Perfeito em perene demandado
Um meteorito em rota de choque
Prestes ao grande baque?

A verdade é que esses tantos anos no batente
Não são o suficiente.

Porque se nos é colocado um limite grávido:
Não podemos existir enquanto perfeitos,
Vivermos tranquilos e seguros em nós mesmos
Completamente amados
Digo, no amor bem acabados

Um estranho desígnio das coisas nos impede, nos determina
Nossa ânsia de amor precisa ser constante
Até o último instante