Itamar é preto brás
"Às vezes mezzo engenheiro/ mezzo psicanlista/ trejeito de batuqueiro/ a veia de repentista". A última obra que Itamar lançou em sua vida de artista foi Pretobrás - Por que não pensei nisso antes, de 1998. A pergunta tinha continuação programada; Itamar queria fazer de Pretobrás outra trilogia (como Bicho de 7 cabeças). Queria também lançar uma caixa preta de sua obra, resgatando seus álbuns já fora do mercado. Não foi em vida que Itamar teve os planos concretizados, pois um câncer de intestino o levou em 2003, aos 53 anos de idade. Mas Anelis e Serena, filhas do Nego Dito, continuaram o trabalho do pai com o auxílio de Beto Villares e Paulo Lepetit, lançando em 2010 dois álbuns inéditos junto com o projeto "Caixa Preta" da obra de Itamar. O primeiro, músico e produtor talentosíssimo da cena contemporânea paulista, o segundo, parceiro de jornada de Itamar desde os tempos áureos da Lira Paulistana.

O que Anelis e Serena fizeram foi resgatar gravações de material inédito de voz e violão deixadas por Itamar em alguns estúdios e distribuir entre Beto e Paulo para que surgissem Pretobrás II - Maldito Vírgula e Pretobrás III - Devia ser proibido. No segundo da trilogia, Beto convidou músicos atuais para dar ar e clima mais pop contemporâneo (Seu Jorge, BNegão, Arnaldo Antunes, Anelis e Serena, Elza Soares, e outros) à obra do músico que sempre quis ser chamado artista popular. Para realizar sua parte, Paulo Lepetit trouxe a brutal Isca de Polícia e outros amigos/parceiros de Itamar (Zélia Duncan, Ney Matogrosso, Arrigo Barnabé, Naná Vasconcelos e outros). O resultado de Pretobrás III é para mim uma das obras mais avassaladoras do artista pois parece reunir as pontas da obra de Itamar: a energia poderosa da Isca de Polícia, os arranjos vanguardistas de Paulo Lepetit, a participação de amigos e parceiros de vida, terminando com a maturidade e excelência musical atingidas por Itamar nesse fim-auge; uma fusão fim-início que completa um ciclo.

Segue abaixo a trilogia do preto mais brás da música popular. Os destaques do volume I são Deus te preteje, Dor Elegante, Ich Liebe Dich, Olho no Olho, Pesadelo, Por que não pensei nisso antes, Vá cuidar de sua vida e Vida de Artista. No volume II minhas favoritas são Maldito Vírgula, Je T'aime mais que o Jerome, Todo esse tempo I, Más Línguas, Breu da noite e a brilhante Elza Soares. O terceiro volume da trilogia é para mim o mais forte, algumas das melhores são Anteontem (Melô da UTI), Grude, Devia ser proibido, Persigo São Paulo, Ninguém como você, Pirex, Visita Suicida e Que tal o impossível. Aqui está a obra viva de Itamar, músico dos mais intensos e autênticos que esse brasil artista já viu. A trilogia Pretobrás é o resultado de tudo que Itamar construiu: obra, família, amigos, poesia, vida. "
Quem compõe um pretobrás incomoda muita gente/ quem compõe dois pretobrás incomoda muito mais".
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