O Encanto Da Mulher Coxa.

“Uma mulher coxa tem um encanto caprichoso no andar; a graça se esconde no claudicar dela. A questão é descobrir essa graça, mas para descobri-la é preciso amá-la.”

É o que diz o Jean-Paul Sartre no seu livro Diário de Uma Guerra Estranha, e é uma ideia notável que podia ser desmembrada em milhares de outras, e um livro inteiro sobre as estranhezas do amor poderia ser escrito com base nela.

O que temos aqui é uma questão de estética, que também é uma questão Existencial. A primeira coisa que Sartre parece dizer é que um defeito físico – como o coxear - pode ser o local onde a beleza mora. Pode ser mais do que beleza, pode ser encanto, uma palavra muito significativa.

O andar dessa mulher tem um encanto caprichoso, e esse encanto se transmite ao corpo dela inteiro, porque o corpo todo se movimenta com a perna que coxeia. Mas há mais uma coisa: há graça nisso, e é nesse claudicar dessa mulher coxa que a graça se oculta.

Mas Sartre vai além. Essa graça e esse encanto (que são muito mais do que simples beleza e formosura) existem nesse coxear e claudicar não apesar deles, mas justamente por causa deles. Tudo muito bem, mas há um problema: como é que se descobre tudo isso?

Amando essa mulher, é a resposta de Sartre. É preciso amá-la primeiro para descobrir o encanto e a graça do defeito dela. Ou seja, a graça e o encanto dessa mulher coxa que claudica não existiam antes de eu amar. Foi o meu amor por ela que me fez descobrir tudo isso, ou criar nela isso que agora vejo. Sem amá-la eu veria apenas o defeito que ela tem, nunca o encanto e a graça que se escondem nele.

O que Sartre parece querer dizer é que o amor pode nascer mesmo em face da ausência daquilo que convencionalmente se chama beleza. Ele nasce por outras razões, por muitas outras, talvez, como disse o Pascal, por razões do coração que a própria razão desconhece. E quando esse amor nasce, ele descobre a beleza que o ser amado tinha oculta.

Frank Pereira
-A Teia de Arachne.